Obama 1 x 0 Pac-Man
23.05.2010
EEUU, 23 May (UYPRESS)- Comemora-se aniversário de 30 anos do Pac Man. Parece mentira que tenham se passado trinta anos. Ou seja, estamos falando de 1980. A Argentina era governada por Jorge Videla e José Alfredo Martinez de Hoz; Margaret Thatcher era a número um do Reino Unido e Ronald Reagan ganhava sua primeira eleição.
Quem ligou o computador dia 21 de maio viu o Pac Man e leu uma notícia impactante: a maioria do Senado dos EUA aprovou a reforma financeira impulsionada por Obama. O artigo é de Martín Granovsky.
Martín Granovsky - Página 12
Os desenhistas do Google são engenhosos. Dia 21 de maio, na logomarca publicada em sua página na internet, apareciam alguns fantasmas e se escutava música de jogos eletrônicos. Ao se passar o mouse sobre a marca podia-se ler: “Aniversário de 30 anos do Pac Man”. Parece mentira que tenham se passado trinta anos. Ou seja, estamos falando de 1980. A Argentina era governada por Jorge Videla e José Alfredo Martinez de Hoz; Margaret Thatcher era a número um do Reino Unido e Ronald Reagan ganhava sua primeira eleição. Outro mundo. Seria exagerado chamá-lo de mundo de Wall Street?
Aqueles que abriram o computador neste dia pela manhã viram o Pac Man e leram uma notícia impactante: a maioria do Senado norte-americano aprovou a reforma financeira impulsionada pelo presidente Barack Obama e seu operador no Senado,
Christopher Dodd.
Essa reforma é boa ou má? Uma boa pista sempre é o blog do Nobel Paul Krugman, no New York Times. Krugman estava contente. Escreveu que a reforma não é tudo aquilo que devia ser, mas é melhor do que parecia que ia ser. O positivo, segundo ele, está em um punhado de avanços como uma autoridade de aplicação que resolverá sobre os problemas financeiros, a proteção ao consumidor, o controle sobre produtos secundários da indústria financeira (o mercado de títulos hipotecários, por exemplo) e a reforma no sistema de classificação de riscos.
Krugman acredita que o mais interessante é ter criado um mecanismo de supervisão e monitoramento de Wall Street.
Obama aproveitou a primavera para fazer um jogo de palavras no Rose Garden da Casa Branca. Ele disse: “Quero agradecer a todos os americanos que mantiveram firme sua pressão sobre Washington para mudar um sistema que trabalhava mais para os bancos de Wall Street que para as famílias de Main Street”. Wall Street é a zona financeira de Nova York. Main Street não existe fisicamente. É uma metáfora da rua principal, da avenida da maioria da população. O presidente incluiu aí “as famílias que querem comprar seu primeiro automóvel e sua primeira casa ou os contribuintes que não têm por que pagar pela irresponsabilidade de outros”.
O discurso tem um tom parecido ao das primeiras mensagens do presidente Franklin Delano Roosevelt. Na primeira de todas, no dia 4 de março de 1933, FDR disse que “a felicidade não nasce da mera posse de dinheiro, mas sim da alegria do êxito do esforço criativo”. Em meio à Grande Depressão, Roosevelt disse que “a primeira grande tarefa é que o povo tenha trabalho” e propôs “evitar a volta da velha ordem” através da “estrita supervisão dos bancos”.
Os discursos de Roosevelt foram citados nos últimos meses por Dodd, o veterano democrata que impulsionou a nova reforma financeira de Obama como presidente da Comissão de Bancos, Habitação e Questões Urbanas do Senado. Ele é congressista desde 1974, quando tinha apenas 30 anos, e sempre se opôs às ditaduras da América Latina.
Obama e Dodd começaram sua campanha recordando a bancarrota do Lehman Brothers, em 2008, que foi o detonador da crise mundial. Neste mesmo ano, Obama conseguiu aumentar sua base política quando conseguiu a duras penas que o Congresso aprovasse a ampliação da cobertura obrigatória de saúde. Com essa dose de oxigênio voltou a mergulhar no Congresso e há um mês recebeu uma ajuda imprevista: estourou o escândalo do banco de investimentos Goldman Sachs, acusado de vender hipotecas lixo sabendo que elas eram isso. Por isso a votação do dia 21 de maio, de 59 a 39, contou também com muitos votos republicanos.
O Senado é tradicionalmente permeável a Wall Street, mas nem todos os dirigentes políticos querem incinerar-se no ódio que atraíram Lehman Brothers e Goldman Sachs entre os que perderam a casa ou o emprego pela ação de “predadores e inescrupulosos”, para usar as palavras de Obama. O presidente está longe de ter se tornado um marxista. Mas parece estar encabeçando uma transição entre a desregulação sem limites e um quadro mais balanceado. “Não terminaremos com o mercado livre, mas simplesmente dotaremos esse mercado de regras que assegurem previsibilidade, responsabilidade e sensibilidade”, disse Obama no Rose Garden. Ele também destacou que os Estados Unidos recuperaram empregos nos últimos quatro meses e destacou que o crescimento do emprego é o grande objetivo do G-20, grupo de 20 países do qual faz parte a Argentina.
Tanto Michael Shear, colunista do Washington Post, como a edição on line do semanário conservador britânico The Economist, usaram a mesma palavra para descrever o discurso de Obama: “populista”. Tudo é porque Obama quer que os democratas ganhem as eleições legislativas de novembro. Apelar a esses fantasmas parece ser, para os ultra-conservadores, um modo de esquivar-se do debate que vem aí. O texto da reforma financeira tem 1.500 páginas. No blog da Casa Branca, Dan Pfeiffer escreveu que agora os lobistas se empenharão em conseguir a maior quantidade possível de letras miúdas e, depois, torná-la menor ainda na prática comercial e financeira até que nenhuma lupa seja capaz de lê-la. A reforma muda até os formulários para comprar um carro a crédito. Por isso a obsessão de Obama e Dodd é que não fiquem lacunas e exceções que prejudiquem todo o trabalho realizado.
Que coisa estes populistas: não querem o reinado do Pac-Man.
Tradução: Katarina Peixoto
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